Aeroportos: Tema do Momento

10 de December de 2009 | Por | 5 Comentários More

Vira e mexe, o tema aeroportos volta a mídia. No Brasil só se gasta em infraestrutura quando a coisa para de verdade (nem mesmo quando ameaça parar). A mídia não para de falar das deficiências de nossos aeroportos como se já dissesse: se vier o caos, nós já alertamos! O sindicato das cias aéreas, o SNEA, também profetiza o apagão.  Nós, aqui no blog, temos alertado constantemente sobre a necessidade de investimentos nos aeroportos.

O que me impressiona é que apesar de ser quase um clamor dos usuários a necessidade de novos aeroportos e de uma mudança gerencial nos existentes, ninguém definiu ou discutiu profundamente ainda que tipo de aeroporto queremos para os usuários do transporte aéreo. Sabemos que a massificação do transporte aéreo é algo irreversível em um país com dimensões continentais, de grandes distâncias a serem percorridas, com estadas em péssimo estado e sem a opção de transporte férroviário de massa.

Convivemos com aeroportos que parecem rodoviárias do interior melhoradas, onde o conforto do usuário fica em segundo, terceiro ou quarto plano. Imagina como anda os serviços aos quais não temos acesso? O caos demonstrou que nossos aeródromos  não possuem reserva técnica nem de equipamentos ou instalações físicas adequadas ou atualizadas.

Do ponto de vista do usuário o que temos hoje?

Uma grande parte dos grandes aeroportos nacionais possuem poucas e caras formas de acesso aos mesmos. Passagens de ônibus executivas muito caras.  A opção de ônibus comuns fica fora de cogitação  para quem tem malas, pela questão segurança ou porque não se prevê em muitos ônibus o espaço para transportá-las mesmo sendo uma linha que serve a um aeroporto). Taxis que podem ter tarifas até mais altas que de uma passagem aérea promocional. Portanto, chegar e sair de uma aeroporto envolve necessariamente altos custos.

Do ponto de vista de conforto, a maioria dos aeroportos nacionais não oferece assentos confortáveis, pontos de acesso a energia, principalmente nas áreas de acesso comum do aeroporto.  Portanto, esperar um vôo nos aeroportos no Brasil não deixa de ser um sacrifício, já que nos dias de hoje você necessita chegar 2 ou mais horas antes de vôo no aeroporto, vai ficar sentado numa cadeira padrão Infraero (dura e fria de forma a você não permanecer por muito tempo lá) e se for comer, leva uma mordida na carteira.

Muito se fala do modelo implantado no Aeroporto Changi de Cingapura. O aeroporto está sempre passando por reformas. Há mais de 15 anos tem um metrô moderno e acessível ligando a cidade ao aeroporto. Possui cinema, supermercado e piscina disponíveis para os seus usuários. Faz questão de afirmar que os preços cobrados no aeroporto são semelhantes ao cobrado no centro da cidade e desafia o usuário a provar o contrário. Tem WiFi e computadores de graça para acessar a internet e por ai vai. Para as cias low cost foi criado um terminal exclusivo que ainda não tive a oportunidade de conhecer.

O que fez o Chang diferente dos demais aeroportos do Brasil? Vontade política e visão empresarial. O Changi funciona como a porta da frente da cidade estado de Cingapura. Lá você tem seu primeiro e último contato com a cidade e muitas memórias se associam a esses momentos. Quanto mais fácil for o acesso e melhores foram os serviços prestados, maiores as chances do usuário voltar ao aeroporto nem que o escolha apenas como ponto de conexão. Ele recebe seus usuários de braços abertos e faz uma grande divulgação turística da cidade estado. Quanto mais passageiros, mais a cidade de Cingapura e o aeroporto ganham e indiretamente a Singapore Airlines ganha oferecendo conexões rápidas e agradáveis aos seus clientes (lembrando que ela transporta por ano mais que a Varig transportava em seus tempos de maior atuação e quase monopólio de rotas, mesmo sendo Cingapura um país de cerca de 4 milões e meio de habitantes). Portanto, viram no turismo uma importante fonte de renda para o país e nela investiram como se outra forma de geração de empregos e renda fosse.

Só privatizar não resolve. O ato de passar a batata quente para as mãos de um segundo em nada ajuda a fortalecer o turismo, a imagem que o país passa a seus turistas ou o fornecimento de melhores serviços mantendo a equação equilibrada entre preços e serviços.  Somente uma visão mais séria do governo na questão turismo e transporte salva nossos aeroportos dessa sina.

Na minha forma de ver, portanto,  a base para a evolução dos nossos aeroportos é a decisão político econômica de qual tipo de aeroporto queremos. Depois vem a decisão de privatizar, de formar parcerias (até permitindo as cias aéreas operar terminais) ou fortalecer a Infraero.

O Brasil só mira no externo. A Copa de 2014 é o marco que o Brasil mira. Não importa aos nossos políticos como os brasileiros vivem hoje. Nem se importam com as absurdas filas na imigração dos grandes aeroportos. Se não fosse a Copa, nada de obras…

Acidentes e promessas de descentralização de fluxo de aeronaves, novas pistas de pouso, novos aeroportos, investimentos em radares e monitorização de tráfego aéreo, tudo isso se tornaram promessas não cumpridas ou parcialmente cumpridas. Mas neste final de ano, nossas autoridades renovam mais uma vez suas promessas para o próximo ano.

Enquanto isso ficamos com um Guarulhos entupido (passe por lá uma sexta à noite comum para ver o caos…), um Galeão sofrendo com goteiras e elevadores estragados, um Confins sem estacionamento e com salas de embarque lotadas, Viracopos também chegando ao limite (e com comércio que fecha bem antes do final do pico de operação do aeroporto…) e por ai vai.

Enquanto a Copa não chega e o pessoal não define como o rateio do $$$ vai ser feito entre eles, você continua sofrendo nos aeroportos…

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Category: Aeroportos

Comentários (5)

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  1. André Cr-Cri says:

    As pessoas só se dão conta da desgraça que são os aeroportos brasileiros quando viajam ao exterior (o aeroporto de Cumbica hoje em dia está mais mais uma rodoviária de quinta categoria). E nem precisa ser a mãe Diná para prever que durante a copa de 2014 tudo será 10 vezes pior pois é impossível construir um novo aeroporto em SP até lá ou ampliar Cumbica.

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  2. Tiago says:

    Pois é Rodrigo, é triste mesmo a situação dos nossos aeroportos. Me admira que, msmo assim, nossa aviação ainda funcione de vez em quando.
    É ruim para quem tem que usar os aeroportos frequentemente e para a imagem do país, já que alguns deles (principalmente o de cumbica) são a porta do Brasil.

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  3. Renata says:

    Texto absurdamente fantástico e apropriado! Obrigada por compartilhar.

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  4. Mariana says:

    Oi Rodrigo ! Td bem?
    Só me dei conta de que os aeroportos daqui não sao bons quando fui ao exterior. Em relação ao tamanho então..nossa. impressionante como os nossos aeroportos são pequenos.
    O Tom Jobim aqui no Rio, realmente sempre tem problemas com os elevadores. Já aconteceu mais de uma vez e olha que minha média de viagens por ano não é tão grande.
    Sabe outra coisa que incomoda, o tempo p/ passar na alfandega. Já cheguei a ficar mais tempo na fila p; voltar ao Brasil do que esperando p; entrar no exterior. Teoricamente entrar no seu próprio país teria que ser mais fácil não?!
    Outra coisa que eu não entendo são os preços exorbitantes p/ usar a internet aqui.

    Estou indo viajar no sábado, dia 19 p/ exterior.
    Depois deixo um comentário aqui sobre como foi nos aeroportos. Vou passar pelo Galeão, Charles de Gaulle ,Schiphol e Stavanger na Noruega.
    Vou tentar fazer um comparativo, sobre organização, infra estrutura . Se eu lembrar vou tentar checar os preços da internet. Se vc quiser saber algo específico pode falar.
    Eu checo seu blog quase todos os dias. Muito do que eu aprendi sobre como comprar melhores passagens devo a vc. Já fui eleita até consultora de planejamento viagens da família..rs
    Um abraço.

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  5. Tema Legal!!!
    No retorno de um viagem ao exterior em Outubro, tive a sorte de retornar a Guarulhos, no mesmo momento em que estavam retornando várias “Autoridades” do anuncio que o Rio, seria a cidade Olímpica, e eles estavam encarando aquela fila apertada da PF na chegada, com aquela vontade de trabalhar, todo mundo lado a lado espremido e ao lado cartazes da Gripe “A”, um espetáculo.
    Bom foi porque estava nesta comitiva o Ministro do Esporte, então já na chegada estavam recebendo as boas vindas do Guarulhos International Airport, show.
    Abraço!!!

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