Gol e Tam entre as Mais Inseguras do Mundo. Será Mesmo? De Nada Adianta uma Ferramenta Boa se Não se Sabe Usá-la Corretamente

24 de January de 2011 | Por | 36 Comentários More

Por questões profissionais acabei tendo um pouco mais de contato com epidemiologia e estatística. Gosto muito das duas matérias apesar de não dominá-las como gostaria. O certo é que passei a respeitar os números e ao mesmo tempo desconfiar da interpretação dos mesmos.

A estatística é uma ferramenta sensacional e te ajuda a enxergar de forma mais clara diversas situações. Porém, ela mesmo costuma alertar que a coleta de dados está sempre sujeita  a vícios ou fatores de confusão que podem dificultar a interpretação dos mesmos.

Um exemplo claro é a velha piada onde se diz que uma pessoa comeu um frango inteiro e o outro nada comeu, mas estatisticamente estariam todos os dois satisfeitos, já que na média caberia meio frango a cada um. A média é apenas uma das medidas e como citado no exemplo acima, uma medida ruim quando de trabalha com dados que não se distribuem de forma mais uniforme.

Assim, um mesmo conjunto de dados pode gerar diversas interpretações se colocados na mão de quem não domina o tema estudado ou não domina os limites do método.

Uma recente pesquisa divulgada pela JACDEC (Jet Airliner Crash Data Evaluation Center), um órgão que parece privado localizado na Alemanha e cujo site não traz maior fundamentação científica, além de parecer ter interesse maior na venda desses dados, colocou a Tam e Gol entre as cias áreas mais inseguras do mundo. Dá para confiar nessa pesquisa?

O JACDEC parece ter iniciado em 1989 a coleta de dados sobre acidentes aéreos em todo mundo. Eles publicam um índice chamado de  The JACDEC Safety Index que tem a intenção de determinar a probabilidade de risco de acidente tendo como base o passado das cias aéreas. Eles usam o número de vítimas fatais e o número de passageiros transportados para formar uma razão, além de levar em conta acidentes com perda total de aeronaves mesmo sem vítimas.

Ai começa a confusão. Para realizar seu Index, eles usariam dados consolidados dos últimos 30 anos. Assim:

  • Cias aéreas mais novas sem sinal de acidentes já partem em vantagem por não carregar um passivo (não tiveram tempo para ter acidentes em passado mais remoto)
  • Cias mais novas com acidentes por não terem um grande passado (número de passageiros transportados baixo) são bastante afetadas por um único acidente.
  • Cias aéreas antigas com um passado ruim mesmo que se transformassem em modelos de segurança sempre seriam penalizadas pelo seu passado.

Outro fato importante é que o Index não leva em conta a causa do acidente e sim apenas o número de vítimas fatais e perda total da aeronave no acidente. Se o acidente foi causado por um defeito de projeto da aeronave (a engenharia aeronáutica evoluiu muito analisando seus próprios erros), o peso do acidente recai totalmente sobre a cia aérea, mesmo que tenha sido ela também uma vítima de um projeto falho.

O mesmo acontece com a Gol onde o acidente até onde sabemos ocorreu por falha de terceiros e que mesmo a aeronave sendo nova e ela tendo seguido todos os procedimentos, pelo Index ela é penalizada pelo acidente.

Assim, sem uma análise mais rigorosa desses dados que formam o indicador, além de deixar bem claro as limitações do método utilizados por eles, pouco vale esse Index e muito prejuízo traz a imagem de algumas cias aéreas.

É claro que saber que em mais de 30 anos determinadas cias aéreas nunca sofreram um acidente fatal deixa muito mais confiante o consumidor dessas cia aéreas, mas não dá garantia de que isso não irá ocorrer já que as cias aéreas são órgão vivos e o seu presente guarda relação com as políticas atuais das cias aéreas e não com seu passado.

Da mesma forma que o único acidente da Gol em seus curtos 10 anos de existência não é suficiente para a torná-la uma das cias aéreas mais inseguras do mundo, muito porque pouco  poderia a Gol fazer para impedir o acidente. Então é o Brasil que é inseguro e não a Gol!

Apesar da Tam ter um passado ruim e ainda ter acidentes cujas causas nunca foram totalmente esclarecidas, não há como jogá-la no mesmo nível de um Garuda que transporta um número muito menor de passageiros em aeronaves muito mais velhas e com um péssimo histórico de acidentes.

Mais um exemplo: a Qantas está entre as mais seguras do mundo, porém no ano passado sofreu com vários incidentes. Alguns quase em série. Mas como não houve mortes nem perda total de equipamento, o Index não penaliza em nada Qantas, independente das falhas que causaram alguns desses incidentes serem da própria Qantas ou dos fabricantes das aeronaves. Gosto e respeito muito a Qantas, mas esses incidentes não a fazem fazer parte do mesmo grupo de uma ANA no último ano. Mas ela passa incólume nesse Index.

Dessa forma, eu não consigo levar a sério esse Index produzido pela JACDEC.

Category: Cias Aéreas

Comentários (36)

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  1. bruno says:

    relato que essa pequisa mostra o historico da cias aereas desda qualidade do atendimento conforto e serviço de bordo ate os acidentes na verdade eles fazem uma busca de fato acontecidos com essas cias empresas que vive na midia como a tam que faz de um fato normal ser um verdadeiro acontecimento poderiam para de fazer tanta propaganda e envertir em treinamento dos seus fucionarios que trata mal seu passageiro que nao volta a voar na tam nunca mais cito o caso dos franceses que repercutiu na europa inteira e no mundo o pleno discaco da tam em vender passagem alem da capacidade pura falta de respeito da tam com os passageiro que por essas e outras coisas deixa de voar tam e nao recomeda a tam a niguem porque nao gostaram dos seus seviços sao esses quesitos que fazem a tam estar nas ultimas colocaçoes essa pesquisa nao leva em concideraçao cias aereas e suas alianças a tam e` uma star alliance que faz a mesma tatica da tam vive na midia como a mehor aliança star alliance melhor cias aereas da star alliance entao o que faz a tap na frnte da lufhansa , sas que se acha superior as outras cias aereas e outras alianças como skyteam a garuda que nessa pesquisa relata que a garuda estar muito melhor hoje mehorando sua qualidade de serviço e para quem liga para premios a garuda e` cia aerea 4 estrelas e que a pouco retomou seus voos para a europa a garuda estar na frente da tam nessa pesqisa. parabens a airberlin que e` superior na qulidade e em todos os quesitos analizados em comparaçao com a lufhansa sendo air berlin umas das primeiras no rankig sao da oneworld cia como finnair que poco aparece na midia tem uma exelente qulidade a quantas aiways estar no 1 lugar porque em primeiro lugar vem o respeito ao passageiro e a qulidade dos serviços faz da quantas a melhor do mundo a oneworld a melhor do mundo em qualidade a skytem com a korean air mostrando que pode – se superar oferencendo um serviço de qualidade e exelencia reconhecida mundialmente tornando – se uma cia segura e confiavel faz da korean air uma das mehores cias aereas do mundo a korean air e a airberlin poderia servi como exemplos para tam e gol .

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  2. tibúrcio barros says:

    Prezado Rodrigo,
    Infelizmente a estatística não mostra a real imagem que tenho da Gol, porém acho que ele está correndo risco operando com estes 767 que sempre necessitam de manutenção emergencial.
    Porém, acho que a Tam merece a pontuação que tem. Lendo o texto e os comentários, comecei a lembrar os acidentes delas que já li:
    1 Fokker 27 aterrissando em Bauru com morte de pessoas dentro e fora da aeronave.
    Fokker 100 temos o acidente fatal em Congonhas em 1996, uma turbina que estourou e matou um passageiro em pleno voo (aterrisou em Confins em emergência, não lembro o ano), pane seca em uma fazenda em 2002 e no mesmo dia o trem de pouso que não funcionou em campinas, a porta que se soltou logo após decolar de congonhas e o avião aterrissou sem problema em GRU. Além da bomba no voo curto de São José dos Campos para Congonhas, que entra na estatística, mas sem culpa para a cia aérea.
    MD-11 que aterrissou com problema em Milão e parece que perdeu parte da asa. Outro aparelho que chegando ao Brasil teve problemas no ar condicionado, mas conseguiu operar normalmente com o sistema reserva.
    Isto é muita coisa para uma companhia de que passou a ser significante apenas de 1992 para cá (18 anos). Se hoje a frota dela é de 150 aeronaves, lembremos que Lufthansa, Bristish, AA, Delta e outras gigantes mundiais, possuem mais de 300 aeronaves, acredito eu operando mais vôos por dia que a Tam por semana, e não vemos tantos casos assim.
    O que me chama atenção também é que a média de idade dos aviões da Tam é uma das menores do mundo. Acredito que apenas os boeing 767-300ER possuem mais de 15 anos. Além do fator de segurança, é importante ressaltar que avião novo significa menos oficina para manutenção tanto preventiva quanto corretiva. Por outro lado, se reparar nos aviões de companhias que na minha avaliação são “acima de qualquer suspeita” com a British e mesmo a Lufthansa, em que seus 747-400 possuem quase 20 anos de operação e não ouvimos falar de problemas técnicos, me faz perguntar como uma companhia que possui aviões mais novos (TAM) permite ter tantos problemas? Só posso acreditar que seja falha na manutenção. Infelizmente, este período negro foi na época em que o presidente era o Marco Antônio Bologna. Agora que ele voltou dar as ordens por lá, não fico muito animado.
    Bem, estas são as minhas percepções.
    Abraços,
    Tibúrcio Barros

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    Rodrigo Purisch respondeu:

    Tibúrcio,

    Não estou dizendo que a Tam seja modelo, ela está muito longe disso, mas numa classificação que leve em consideração outras questões como idade de frota, fiscalização de manutenção, treinamento, disponibilidade de peças e por ai vai, ela não estaria acompanhada de quem está. Não estaria também perto do topo, mesmo porque ela deve respostas…

    Quando se acompanha os fóruns de aviação é que se tem noção do tanto de incidentes que as cias aéreas tem no Brasil e no exterior. Nós não temos noção real disso, da mesma forma que não sabemos quantas cias rodoviárias tem acidentes e incidentes por dia no Brasil.

    Assim não defendo a Tam, mas pondero que ela não pode ser considerada uma das mais arriscadas para voar no mundo como a classificação. Tem muita coisa pior por ai. Vide as cias russas…

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    tibúrcio barros respondeu:

    Olá Rodrigo,
    Sim, entendi o objetivo do seu texto, mas quis lançar alguns questionamentos que jogam contra a TAM, e sendo a atual maior empresa nacional é importante que ela tenha um pouco daquilo que a Panair e a Varig sempre ostentaram, segurança.
    Com certeza existem outras piores que a TAM, mas como vc mesmo menciona, ela está longe da excelência.
    Outra coisa que lembrei depois, com certeza estas empresas “acima de qualquer suspeita” que citei também tem seus problemas, mas como estamos longe ficamos sem saber daqueles incidentes mais leves, como aqueles que acontecem também com a Tam (e qualquer outra empresa aérea). Mas não podemos esquecer as falhas mais graves.
    Aproveitando, espero que tenha visto no Valor Econômico de terç-feira (25/jan) um relatório de uma comissão independente que analisou os protocolos de segurança da Air France. Logo ela!
    Abraços,
    TB

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  3. Rodrigo Purisch says:

    Já fui em pais modesto que tem poucas ruas e estradas, mas as que eles tem estavam em perfeito estado de manutenção….

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  4. Fabio says:

    Só posso dizer que já viajei muito na TAM e nunca nenhum avião caiu . E nem em nenhuma outra cia .

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  5. Rodrigo says:

    Para tudo ha uma primeira vez, e em avião costuma ser primeira e ultima.

    Responder

    EDSON SIEG respondeu:

    kkkk, essa foi boa!

    Responder

  6. Beto says:

    Rodrigo, excelente Post!!! Parabens mais uma vez!!!

    Beto

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  7. Vinícius says:

    Acho que o grande problema de qualquer estudo são as premissas adotadas. Certamente se outras premissas fossem adotadas o resultado seria diferente.

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  8. Marcel says:

    Rodrigo seria possível simular qual seria a colocação da gol excluindo o acidente que vitimou 154 ocupantes?

    Responder

    Rodrigo Purisch respondeu:

    Marcel,

    essa classificação não é mostrada de forma clara e com metodologia aberta a todos. Eles enviam esse material para alguns órgãos da imprensa apenas. Vá no site e você verá que o interesse deles é vender dados…

    Responder

    Marcelo respondeu:

    Rodrigo.
    Outro ponto a ser analisado nesta discucao.
    Como seriam os resultados destes estudos, sem os números dos atentados de 11 de setembro.
    Qual a culpa da AA e da UA neste fatídico episódio?
    Quais seriam os dados reais sem este passivo?
    Informações sobre segurança sao importantes, mas analisar os dados de forma macro, contribui para o debate.
    Tempos atras, li um estudo da FAA, que colocava as 4 maiores cias ameriacanas entre as 10 mais seguras do mundo na relação passageiro/nm voada.
    Neste estudo, os números dos acidentes comprovadamente sem responsabilidade das Aereas foram extraidos.
    Procurei para colar aqui, mas ate o momento não localiZei.
    Se alguém localizar e puder enviar o link, ira contribuir para o debate.

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  9. Rodrigo says:

    Oi pessoal olha a matéria que saiu na Globo.com

    http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI205942-16355,00-TAM+E+GOL+SAO+AS+PIORES+EM+RANKING+GLOBAL+DE+SEGURANCA.html

    Achei legal o fato de 3 companias Low Cost estarem listadas como as mais seguras do mundo, mesmo sendo duvidosos os critérios de avaliação.

    Responder

  10. Vinícius says:

    Rodrigo, acho que a pesquisa é a mesma objeto do deste tópico. É que como sempre o “Aquela Passagem” trouxe a informação antes dos demais veiculos da internet.

    Responder

  11. João says:

    Mas pode ter certeza, neste caso não foram manipuladas, só quem acompanha de perto consegue perceber que sómente a Azul possui um sistema real de manutenção.
    Aquela tapeada por cima que a Gol e Tam fazem, não engana ninguém.

    Responder

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