Gripe H1N1: Hora de Mudar Velhos Hábitos

21 de July de 2009 | Por | 9 Comentários More

Este é um post completamente off-topic, o que tento evitar ao máximo aqui no blog. Já fiz outros posts sobre o tema, mas esses sempre foram relacionados a destinos turísticos e viagens.

O tempo me ensinou a não temer e nem tão pouco negligenciar nenhuma doença. Todas, sem exceção, merecem respeito. Aprendi ainda que estatísticas são ótimas para trabalhar dados de grupos populacionais, mas perdem muito de sua importância quando trazidas para o nível do indivíduo. Não importa nada dizer a alguém que 97 de cada 100 casos evoluem bem, se o caso dele foi um dos que evoluíram mal. O sofrimento pessoal e daqueles que o amam em nada se aproxima da frieza das estatísticas.

Hoje convivemos com uma nova doença que avança rápido devido à facilidade na transmissão e pela ausência de imunidade da maioria de nós. A maior parte dos casos evoluirá bem, como a imensa maioria das Gripes Comuns. Uma pequena porcentagem pode evoluir desfavoravelmente e uma ainda menor porcentagem desses casos pode vir ao óbito, como no caso da Gripe Comum.

Mas por que se preocupar com a Gripe H1N1 se ela é tão parecida com a Gripe Comum da qual perdemos completamente o medo? Porque se trata de uma doença cuja imunidade inexiste na maioria de nós, ao contrário do caso da Gripe Comum, e que gera a chance de termos um grande número de casos em um curto período de tempo, sendo que cada um desses casos podem contaminar um número grande de pessoas e por ai vai. Se o número de casos for muito alto, aquela pequena porcentagem de casos que evoluem mal e principalmente aquela outra menor ainda que pode evoluir para óbito podem aumentar muito em números absolutos, apesar de manter valores estatisticamente baixos. Se uma doença tiver uma taxa de 3% de casos desfavoráveis, teremos 3 casos desfavoráveis a cada 100 doentes, 30 a cada 1000, 300 a cada 10.000, 3000 a cada 100.000 e por ai vai.

Soma-se a isso um sistema público de saúde cheio de falhas, com profissionais mal pagos, pouco motivados e sobrecarregados atuando em condições de trabalho longe das ideais que lutam para dar conta de atender os casos corriqueiros e já esperados estatisticamente. Quem freqüenta os pronto-atendimentos de hospitais particulares, pode notar que muitos estão também no limite da sua capacidade de atendimento. Que tal se, de uma hora para outra, uma multidão de pacientes gripados movidos pelo pânico se encaminhassem a esses serviços a fim de que fossem avaliados e orientados sobre seus quadros de saúde? O sistema teria que dar vazão aos casos que hoje já atendem normalmente e a demanda gerada pela epidemia. Resultado? Todos os doentes sofreriam com a demanda acima do programado, aumentando as chances de erros e de que diagnósticos de quadros mais graves possam passar desapercebidos em meio à multidão. Por isso, sempre advoguei que viagens a locais onde o sistema de saúde não fosse desenvolvido ou que estivessem sofrendo com um número grande casos fossem evitadas.

Mas o que podemos fazer diante disso tudo? Muito pouco, mas podemos passar a ter atitudes que podem ter um bom impacto promovendo a redução da transmissão de doenças respiratórias, seja ela Tuberculose, Gripe Comum, Sinusite, Pneumonia ou Gripe H1N1:

O uso de máscaras cirúrgicas quando tivermos um quadro respiratório independente de qual seja ele, como já é comum em países asiáticos como o Japão (eles acreditam que não é educado ou prudente sair espalhando seus vírus, bactérias ou fungos pela sociedade afora) já reduz a transmissão ao minimizar a disseminação das gotículas de secreções oro-respiratórias que carregam os agentes patógenos. Essa é uma ótima idéia. Isso mesmo se a sociedade resolver te olhar torto como um transmissor em potencial de doenças unicamente por usar máscara e ver com bons olhos o colega que tosse e espirra aos quatro ventos.

Tossir ou espirrar usando um lenço de papel descartável como anteparo é muito melhor do que usar a mão, já que você não descartar sua mão após cada tosse ou espirro. Na pior das hipóteses usar o cotovelo/antebraço como anteparo, já que você não sai dando o cotovelo/antebraço para todo mundo nem o usa para alimentar-se ou coçar os olhos.

Usar álcool em gel a 70% ou lavar e esfregar bem as mãos com sabão (nesse caso por mais de 20 segundos) para higienizar as mesmas com freqüência pode reduzir a chance de uma mão contaminada levar um patógeno a sua boca ou vias respiratórias.

Quando acometido de alguma doença respiratória, evitar ter contato com crianças, idosos, grávidas, imunossuprimidos ou deixar de fazer uma visita aquele parente querido no hospital (você quer que eles melhorem ou que pelo menos não adoeçam, não é ?) é mais do que recomendado.

Evitar tossir ou espirrar na face do seu médico ou daqueles que estão te prestando assistência é mais do que recomendável e no mínimo educado.

Portanto, a nova gripe traz a oportunidade, junto com a necessidade, de mudar velhos hábitos arraigados e prejudiciais a todos nós. Hábitos que sabemos serem não recomendáveis, mas que seja por falta de prudência ou falta de educação ou mesmo por negação inconsciente do risco são perpetuados e devem ser mudados. Só não vou concluir que há males que vêm para bem, pois nenhum sofrimento humano justifica a necessidade de outro ser humano de ter mais consciência sobre sua importância na sociedade onde ele está imerso.

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Category: Notícias

Comentários (9)

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  1. Ernesto says:

    Parabens pelo post, vale o aviso!

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  2. Virginia says:

    Oi, Rodrigo

    Como sempre, post excelente. Repassei-o, citando o seu blog, a vários amigos meus. Agora, achei interessante que, ao contrário do que aconteceu com o post sobre gripe suína na Argentina, viajar ou não viajar, está parecendo que este não vai dar muito “IBOPE”. Realmente é difícil para muitas pessoas reconhecerem que têm comportamentos pouco higiênicos e socialmente prejudiciais, e aí eu mesma me incluo, vez ou outra qualquer um falha.
    Parabéns por ser tão esclarecedor.
    Abraço

    Virginia

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  3. Maria Célia says:

    “Todos os doentes sofreriam com a demanda acima do programado, aumentando as chances de erros e de que diagnósticos de quadros mais graves possam passar desapercebidos em meio à multidão.”

    Apenas para ilustrar a sua advertência, Rodrigo, ontem tive um mal estar, passei no ambulatório aqui do trabalho e a médica me encaminhou ao Pronto Socorro, solicitando um eletrocardiograma, porque estava com taquicardia. Chegando no hospital, porém, o número de pacientes com sintomas de gripes e resfriados era muito acima do normal. Inclusive, a primeira pergunta que me fizeram foi se eu havia estado fora do país nos últimso dez dias.

    No meio de toda aquela correria, o médico não me solicitou nenhum exame, apenas me deu um remédio e me mandou pra casa… Só para A sorte é que eu faço acompanhamento periódico com uma médica, então liguei pra ela e ela solicitou vários exames para investigar o ocorrido. O meu caso foi apenas um episódio, provavelmente sem maior importância, mas imaginem se não existem casos realmente graves que acabam passando desapercebidos pela sobrecarga dos médicos, enfermeiros e equipamentos de diagnósticos?

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  4. Eduardo says:

    Vc é médico, né?

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    Rodrigo Purisch respondeu:

    Está parecendo? Por aqui eu sou só blogueiro mesmo.

    Um abraço

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  5. hotmar says:

    Mais uma vez quero te parabenizar, Rodrigo, pelo excelente post com mais algumas dicas e lembretes para o pessoal se cuidar nessa época de frio, vento e chuva na maior parte do Brasil.

    É isto aí!
    Um grande abraço, e que Deus lhes abençoe!

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  6. Alexandre says:

    Parabéns! Parabéns!
    Até agora esse foi o MELHOR post que li referente a gripe A, entre todos sites/blogs ligados a viagens e turismo. Altamente explicativo, sem demagogias incentivando todos a viajar baseados apenas em estatísticas. O mais importante a se explicar nessa gripe é a ausência da imunidade das pessoas ao novo virus e consequente facilidade de transmissão , o que você fez muito bem!
    Para finalizar pergunto a quem leia se o único problema em se ficar doente é morrer? No caso da gripe A, mesmo as pessoas que evoluam bem terão de ser tratadas com um antiviral que não se encontra mais com facilidades nas farmácias, sendo então distribuido no Brasil pelo Ministério da Saúde ( sabemos como funcionam órgãos públicos no Brasil ), fora que as pessoas contaminadas devem fica isoladas por vários dias, sem sair decasa, nem trabalhar. As estatísticas me dizem que não preciso temer morrer de gripe A, mas se eu puder evitá-la e todos os transtornos decorrentes de uma contaminação, com certeza o farei!

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  7. Rodrigo Purisch says:

    Obrigado a todos pelos elogios e apoio. Fiz esse post mais por desencargo de consciência. Não quero ficar falando vai ou não vai a um determinado local. Quero alertar que não podemos fingir que nada existe e que é fantasia da mídia.

    Quando o outro que sofre é do seu meio,a dor toma outra dimensão. Só espero que não tenhamos que ver o sofrimento bater a nossas portas para ter noção do que podemos fazer para prevenir a nós e quem amamos.

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  8. Guerreirorio says:

    Super esclarecedor.Vc.está de parabéns.Em minha opinião vc.como médico e amante do turismo encerrou,esclareceu com o brilhantismo de sempre o assunto.Parabéns.

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