Vôos Longos e Trombose Venosa (Síndrome da Classe Econômica): Prevenir É Melhor Que Remediar

10 de December de 2008 | Por | 12 Comentários More

Já publiquei um texto sobre o tema no passado e agora volto a ele com um pouco mais de tempo, pois penso que é um tema importante para quem viaja de avião (as informações servem para quem faz longas viagens em outros meios de transporte também!). Parece algo distante de nós, mas só parece! Nosso amigo e colaborador Ernesto (o Pato Econômico) e a irmã da nossa amiga e blogueira Majô foram vítimas dessa patologia.

O que é Trombose Venosa e quais os riscos associados?

A trombose venosa caracteriza-se pela formação de coágulos (trombos) dentro do sistema venoso (das veias) que podem obstruir total ou parcialmente o fluxo de sangue no vaso sanguíneo acometido. As oclusões maiores do fluxo de retorno sanguíneo podem levar a uma série de sintomas (dor, inchaço e calor no local afetado), já oclusões menores podem passar desapercebidas (assintomáticas). Os membros inferiores são os locais onde mais freqüentemente ocorrem as tromboses venosas.

Quando acometem o sistema venoso profundo, a patologia é chamada de Trombose Venosa Profunda (TVP) e é associada com risco elevado de desenvolvimento de Embolia Pulmonar. Isso ocorre quando um desses coágulos causadores da TVP desprendem-se do local onde foi formado ou fragmentam-se, caindo na circulação e migrando para o pulmão causando a obstrução de vasos do pulmão impedindo a perfusão  (passagem de sangue) adequada do  mesmo e impossibilitando correta troca gasosa entre o sangue e o ar dos pulmões (Embolia Pulmonar). Portanto, todo cuidado é pouco em se tratando de TVP e Embolia Pulmonar, já essa última é uma doença que traz alto risco de vida. Dependendo do tamanho do estrago na circulação pulmonar, podemos ter o desenvolvimento de uma dispnéia leve (falta de ar) súbita até uma dispnéia grave que pode levar a morte e não dar tempo para o início de um tratamento médico.

Portanto, não ignore esses sinais e sintomas citados acima no caso de ter feito alguma viagem associado a uma imobilização prolongada!

Quem tem mais risco de desenvolver uma Trombose Venosa?

Pessoas acima de 40 anos de idade (principalmente acima de 60 anos), obesas, com história de doença venosa (inclui varizes nas pernas), insuficiência cardíaca, portadoras de câncer (a TVP pode ser o primeiro sinal de um câncer ainda não conhecido), gravidez e pós parto, tabagismo, um trauma e/ou uma cirurgia recente (principalmente em membros inferiores), imobilidade prolongada, trombofilias (doenças que levam a um aumento da coagulação sanguínea que em alguns casos podem passar por muito tempo assintomáticas), história familiar e o uso de reposição hormonal ou pílulas anticoncepcionais estão entre os maiores fatores de risco para desenvolvimento da Trombose Venosa.

Se você possui algum desses fatores, você já possui mais chances de desenvolver uma trombose venosa comprado a população em geral, independente de estar ou não realizando uma viagem prolongada.

Trombose Venosa e os Vôos Longos

A real incidência (ocorrência de casos novos) de trombose venosa associados especificamente as viagens de longa distância é geradora de muita controvérsia, mas é consenso que esse tipo de viagem está sim associada com o desenvolvimento de casos de Trombose Venosa Profunda e Embolia Pulmonar. Porém, devido as dificuldades técnicas para se montar grandes estudos e pelos custos envolvidos neles, não se conseguiu ainda determinar quantos casos (de TVP ou Embolia) por ano são devidos as longas viagens. A maioria dos estudos médicos disponíveis baseia-se em amostras pequenas e muitos deles sofrem uma ou outra crítica quanto a metodologia empregada.

Até o termo Síndrome da Classe Econômica (criado em 1977) é contestado hoje em dia, já que alguns estudos não conseguiram comprovar diferenças estatísticas entre a ocorrência de fenômenos trombóticos nos passageiros da classe econômica comprados com as da classe executiva.  Aqui é que entra a polêmica dos assentos cada dia mais estreitos e colados um no outro.  A imobilidade é um dos principais desencadeadores dos fenômenos trombóticos e podemos dizer que esses assentos são promovedores de imobilidade. Hoje, para sair de um desses assentos, é necessário solicitar que os vizinhos se levantem e saiam das suas cadeiras, pelo reduzido espaço entre as fileiras. A falta de apoio para as pernas pode facilitar que se mantenha posições de flexão das perna maiores que as recomendáveis por longos períodos lentificando a circulação local. Se não bastasse o fato de que assentos dos corredores já foram associados a maiores chances de sobrevivência em caso de acidentes, uma pesquisa chegou a relatar menor risco de TVP em passageiros sentados nesses locais. Mas os assentos são coadjuvantes nesses casos e não atores principais. Infelizmente, podemos ter TVP voando na executiva, viajando em trens, carros ou ônibus!

Estudos que fizeram o mapeamento de passageiros submetidos a longas viagens aéreas (maiores que 8 horas) chegaram a diagnosticar 10% dos estudados com alguma alteração trombótica ao final da viagem (na maioria pequenos trombos assintomáticos em veias mais superficiais). A maioria dos estudos fala que os submetidos a viagens longas associadas à imobilidade prolongada têm de 2 a 4 vezes mais chances de ter algum fenômeno trombótico, que não seria necessariamente sintomático.

Muito de especula dos papéis de fatores associados especificamente a uma viagem aérea prolongada na gênese dos trombos. Fora a imobilidade, que tem papel de destaque tanto associado a uma viagem aérea como fora dela, a pressão atmosférica reduzida na cabine, redução da saturação de oxigênio no sangue e a baixa umidade (e desidratação consequente) não obtém consenso quanto a sua importância nesse processo.

Por outro lado, o uso de meias elásticas tem se demonstrado consistentemente protetora para o desenvolvimento de fenômenos trombóticos (mesmo os assintomáticos), apesar de não zerar totalmente as chances.

Então o Que Fazer?

Fica claro que se você tem alguns dos fatores de risco para desenvolvimento de fenômenos trombóticos acima citados, você deve se proteger! O uso de meias elásticas tipo Sigvaris ou Kendall é um ótimo começo.

A realização de frequentes dorsiflexões dos pés enquanto sentados durante o vôo, caminhadas esporádicas durante o vôo e atividades maiores durante uma escala são boas medidas adicionais. Uso de roupas largas e confortáveis e que não causem compressão (tipo garrote) é muito recomendável. Lembre-se que pela imobilidade, menor pressão atmosférica e saturação de oxigênio durante os vôos, as pernas tendem a inchar um pouco, portanto deixe um espaço extra nas roupas (o que se mostra inicialmente confortável pode não ser mais depois de algumas horas de vôo). Essas medidas valem para todos os passageiros independente dos fatores de risco.

Procurar por assentos mais confortáveis (Seatguru, SeatExpert) e que permitam uma melhor movimentação (sem esquecer de praticar o que acabamos de citar acima) pode ser uma boa conduta preventiva, apesar de não eliminar todo o risco.

A Sociedade de Torácica da Austrália e Nova Zelândia advoga o uso de Aspirina em doses de 160mg 2 horas antes da decolagem e outra dose igual 24 horas após nos casos de risco leve a moderado de fenômenos tromboembólicos. O uso de Aspirina não obtém consenso na literatura e podem haver contra-indicações para seu uso. Antes de usar qualquer remédio consulte o seu médico de confiança!

Se você possui mais de um daqueles fatores de risco citados acima, então é muito recomendável consultar um médico antes de viajar. Um bom Clínico ou um Angiologista pode te ajudar a fazer uma prevenção mais vigorosa, dependendo do caso pode ser necessário usar drogas injetáveis.

Então agora que você está mais informado sobre o tema, que tal tomar condutas preventivas na próxima viagem? Advogo sempre essas condutas, além do uso de cintos de segurança enquanto estivermos sentados a fim de evitar ser pego por uma súbita turbulência.

Obrigado a Cibele Fabichak que ajudou no levantamento da literatura sobre o tema!

Referências: 
http://www.thoracic.org.au/vtairtravel.pdf
http://whqlibdoc.who.int/publications/2007/9789241580397_2_eng.pdf
http://www.asma.org/publications/paxguidelines.doc
Prevention of edema, flight microangiopathy and venous thrombosis
in long flights with elastic stockings. A randomized trial:
The LONFLIT 4 Concorde Edema-SSL Study.
Angiology. 2002 Nov-Dec;53(6):635-45.
Compression stockings for preventing deep vein thrombosis in
airline passengers.
Cochrane Database Syst Rev. 2006 Apr 19;(2):CD004002
The BEST study--a prospective study to compare business class versus
economy class airtravel as a cause of thrombosis.
Afr Med J. 2003 Jul;93(7):522-8
Venous Thrombosis After Long-haul Flights
Arch Intern Med. 2003;163:2759-2764

Category: Para um vôo tranquilo, Saúde e Segurança

Comentários (12)

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  1. Carmen says:

    Interessantíssimo post. Levo em conta! Em Espanha há um dito popular que dize: mais vale prevenir que curar.
    Um abraço

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  2. Giancarlo says:

    Só acrescentando uma coisinha. Além das dorsiflexões dos pés, caminhar um pouco no corredor do avião, “esticar” a batata da perna, por fim, movimentar as pernas ajuda muito a evitar esse tipo de coisa. Lembrando que o cerne da doença relaciona-se a ficar parado muito tempo em uma mesma posição.

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  3. Rosa says:

    Nós é que agradecemos pela informação valiosa que estamos recebendo. Obrigada mais uma vez, Rodrigo. Eu sempre levo na bolsa as minhas havainas para uso durante longos percursos sentada, seja carro, avião, ônibus, trem. Funciona muito bem.

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  4. Ernesto says:

    Rodrigo : Muito legal a matéria, que ajuda a esclarecer este problema, especialmente em assentos minusculos e desconfortávéis como os da “nova ” TAM .Vale lembrar que pela Lancet, 10% dos passageiros estudados sofreram, em voos longos este problema, que merece ser tratado com atenção.

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    Marcos respondeu:

    TAM amigo? vc REALMENTE esta por fora!!!
    procura outra cia aerea que tenha MAIS espaço então e boa sorte!!!

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  5. luis roberto says:

    caro, obrigado pelo post! ñ sou hipocondríaco, mas vivo falando sobre trombose pra amigos – e invariavelmente sou zuado por minhas preocupações… agora tenho um aliado. abraço!

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  6. CARO Rodrigo, ótima e utilíssima matéria. Não é por menos que seu blog foi citado com DESTAQUE na última matéria que publiquei lá no Fatos & Foto de viagens, com o título “Planeje bem, viaje melhor!”.

    TUDO aquilo o que está relacionado à aviação civil comercial tem amparo sério, criterioso, dinâmico, iformativo e útil aqui no Aquela Passagem.

    E com a contribuição do Ernesto e da Cibele, então, fica ainda mais completo e sério.

    Parabéns pela matéria e se der, passe no Fatos & FOtos de Viagens.

    Grande abraço à (agora) trinca!

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  7. Majô says:

    Rodrigo, super importante você voltar ao tema sobre o qual a maioria das pessoas que viaja desconhece. No caso da Bia, ela só começou a ter problemas, uma semana depois da chegada, o que não é comum. A perna não inchou.
    Os médicos nos disseram que esse episódio é mais comum do que imaginamos e que a maioria das pessoas já sai do avião passando mal, mas não há divulgação. Ele logo chamou a atenção sobre a compactação entre as poltronas a que somos submetidos.
    Por isto acho que devemos escolher empresas se preocupem com a saúde dos passageiros e que tenham aeronaves com mais espaço entre as poltronas.
    Abraços

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  8. Cibele says:

    Caro Rodrigo,

    Achei excelente e muito útil a sua abordagem sobre a trombose venosa profunda. Infelizmente, viajar muitas horas na classe econômica das linhas aéreas passou a fazer parte da lista de fatores de risco deste distúrbio vascular.

    E, muito obrigada pela citação de meu nome, colega! Aliás, contribuir para o seu Blog é uma honra, afinal, ele é bem famoso no mundo das viagens…

    Abraços,

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  9. Emília says:

    Rodrigo, depois dos casos da Bia e agora do Ernesto, eu comecei a prestar mais atenção na doença. Eu sempre durmo o tempo inteiro nas viagens, mas nestas últimas eu procurei acordar a cada duas horas, fazer exercícios e caminhar pelo avião. Sempre é melhor prevenir…
    Ótima matéria!

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  10. Guilherme says:

    Parabéns pelo blog. Infelizmente as empresas aéreas somente cooperam para a ocorrência de situações do tipo, com assentos cada vez mais estreitos. Deveriam ao menos orientar os passageiros a fazer exercícios e se levantar a cada 1 hora de vôo. Médicos costumam prescrever o uso de clexane uma hora antes do vôo (mas somente para aqueles que já possuem o risco). Quanto aos demais, mexam-se!!! Independente da idade.

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  11. Marilia Gaboardi says:

    Após 6 anos esse artigo continua atual e muito útil. Parabéns!

    Responder

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